Para não perder a ligação que teria ao longo de minha vida com a Rua Tamandaré, fiquei com minha mãe na casa de minha avó. Ali fui amamentado e respirei daquele ar especial, que inflou por alguns dias meus pulmões.

DESCOBERTA DE MARÍLIA

Vim para Marília em 1969. Já havia estado aqui anos antes, quando criança, para consulta com o Dr. Ademarzinho, por conta de um problema renal.

Mas a Marília que conheci então foi uma cidade maravilhosa, cheia de ventos. Achava lindo chegar ao cruzamento da Nove com Sampaio Vidal e ter de segurar a saia. É, porque, caso contrário, era como guarda-chuva em temporal: virava do avesso.

Prédios que minha cidade natal não tinha, bares e lanchonetes, onde comi meu primeiro X salada, o Banespa, de esquina, minha primeira conta bancária (de estudante), tudo era novidade.

A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, Instituto Isolado da USP, na Vicente Ferreira, era uma referência e estudar lá um grande orgulho.

Hoje, cruzo a Nove com Sampaio Vidal de calças, longas ou curtas, e não mais preciso segurar a saia, posso comer X qualquer coisa em carrinhos de lanches espalhados pela cidade, mantenho minha conta no Banespa, ops, Santander Banespa, e voltei a freqüentar o prédio da Vicente Ferreira, como aluna da UNATI (Universidade Aberta à Terceira Idade), um projeto da UNESP.

Meu deslumbramento com Marília continua o mesmo. Eu amo esta cidade. Para mim ela é começo e fim.

Maria Ivone - 11/09/2006


Prudente esquina com São Luiz

Os mais antigos devem se lembrar. Prudente esquina com São Luiz. Havia ali a Casa Mimosa e, seguindo, descendo a São Luiz, o Bazar Mimoso. Eram da família Arbex. Na parte superior ficava a grande casa. Grande em tamanho e imensa na magnitude com que eles acolhiam os amigos dos filhos.

Passava lá os finais de semana em que não viajava para a casa de meus pais. Para uma estudante, vivendo longe da família, os finais de semana seriam por demais melancólicos, não fossem a companhia da

amiga Maria e a hospitalidade de sua família.

Da janela, apreciávamos o movimento. Da cozinha, sempre o delicioso cheiro de comida Síria. Aprendi a apreciar o sabor diferente e até hoje tenho queda especial por tais pratos.

Havia muita disciplina e ordem naquela casa. E muito amor também. Longas conversas na cozinha ou na sala de jantar...

Quem dera os estudantes de hoje pudessem ter casas que os recebessem com tanto carinho, mas com rigor também, porque o rigor ensina e aprendi muita coisa naqueles finais de semana.

A vida dá voltas e, numa dessas voltas, não mais encontrei a Casa Mimosa, nem o Bazar Mimoso, nem a grande casa do piso superior. Em seu lugar, uma grande loja de departamentos.

Sinal do progresso? Para mim, foi retrocesso. Tenho saudades!

Maria Ivone - 13/09/2006

            Mas por que lembrar desse início? Afinal era mais um na multidão que nascia para aumentar a população de minha querida Marília.

            E o que significava a Rua Tamandaré? Nada, apenas uma rua de um bairro conhecido por Morro do Querosene; um bairro pobre e de pessoas simples; nada tinha de importante àquela rua; mas, para mim tinha muita importância, pois nela praticamente me criei.

            Logo que me conheci por gente quis viver com minha avó, ela vivia só, por isso quis fazer companhia a ela.

            Meus pais deixaram, pois seria difícil me segurarem; com meus 6 anos fui viver com minha avó; fui morar na Rua Tamandaré.

            Ali aprendi quase tudo da vida, pois vivíamos em dois cômodos de “parede meia” (uma casa grande, dividida para abrigar várias famílias), eram várias casas num mesmo terreno, todas elas abrigavam famílias; seria o equivalente hoje as favelas, por isso carinhosamente no título desta crônica dei o nome carinhoso de “favelinha”.

            Na favelinha vivíamos como uma grande família, uma miscigenação interessante; uma grande escola de vida.

            Hoje ao me lembrar da favelinha, da Rua Tamandaré, sinto saudades e orgulho, pois vim de um lugar muito pobre, mas, de uma dignidade indescritível.

            Muitas vezes em minhas divagações, penso que se todos os políticos que hoje estão administrando (administrando?) Marília, tivessem feito estágio de vida na Rua Tamandaré, com certeza nossa cidade teria uma classe política séria e honrada; mas, eles não viveram na favelinha, eles talvez nem saibam onde fica a Rua Tamandaré.

Corbi® - 11/09/2006