Para não perder a ligação que teria ao longo de minha vida com a Rua Tamandaré, fiquei com minha mãe na casa de minha avó. Ali fui amamentado e respirei daquele ar especial, que inflou por alguns dias meus pulmões.

FAVELINHA

No final de 1949, nasci. Era para nascer na Rua Tamandaré, na cidade de Marília; Mas, teimoso, dei trabalho e minha mãe precisou fazer o parto na Gota de Leite, pois precisei nascer a ferro.

            Para não perder a ligação que teria ao longo de minha vida com a Rua Tamandaré, fiquei com minha mãe na casa de minha avó. Ali fui amamentado e respirei daquele ar especial, que inflou por alguns dias meus pulmões.

            Mas por que lembrar desse início? Afinal era mais um na multidão que nascia para aumentar a população de minha querida Marília.

            E o que significava a Rua Tamandaré? Nada, apenas uma rua de um bairro conhecido por Morro do Querosene; um bairro pobre e de pessoas simples; nada tinha de importante àquela rua; mas, para mim tinha muita importância, pois nela praticamente me criei.

            Logo que me conheci por gente quis viver com minha avó, ela vivia só, por isso quis fazer companhia a ela.

            Meus pais deixaram, pois seria difícil me segurar; com meus 6 anos fui viver com minha avó; fui morar na Rua Tamandaré.

            Ali aprendi quase tudo da vida, pois vivíamos em dois cômodos de “parede meia” (uma casa grande, dividida para abrigar várias famílias), eram várias casas num mesmo terreno, todas elas abrigavam famílias; seria o equivalente hoje as favelas, por isso no título desta crônica dei o nome carinhoso de “favelinha”.

            Na favelinha vivíamos como uma grande família, uma miscigenação interessante; uma grande escola de vida.

            Hoje ao me lembrar da favelinha, da Rua Tamandaré, sinto saudades e orgulho, pois vim de um lugar muito pobre, mas, de uma dignidade indescritível.

            Muitas vezes em minhas divagações, penso que se todos os políticos que hoje estão administrando (administrando?) Marília, tivessem feito estágio de vida na Rua Tamandaré, com certeza nossa cidade teria uma classe política séria e honrada; mas, eles não viveram na favelinha, eles talvez nem saibam onde fica a Rua Tamandaré.

Corbi® - 11/09/2006


NOS TEMPOS DO CINE MARÍLIA

            Quem é de Marília ou aqui está há bastante tempo, vai se lembrar com certeza do nosso primeiro cinema, do Cine Marília; Daquele prédio imponente na esquina da Campos Salles com a Sampaio Vidal.

            Cine Marília dos festivais de cinema, onde a nata artística do país se reunia para concorrer a prêmios pelo melhor filme, melhor ator ou atriz, melhor direção, etc.

            Cine Marília das histórias de amor; quantos namoros que ali começaram e quantos casamentos vieram.

            Cine Marília, marca registrada da cidade menina, da Marília que crescia e se desenvolvia com rapidez.

            Cine Marília do “seu” Zezinho, dos lanterninhas que levavam os atrasados as poltronas; da “bombonier”, onde comprávamos chicletes e balas deliciosas.

            Cine Marília do Ezequiel, o velho Ezequiel, que se tornou história.

            Cine Marília, dos comissários de menores, que sempre tentávamos burlar suas vigilâncias para entrar em filmes proibidos para menores, e quando pegos, além de não conseguir entrar, ainda ouvíamos um sermão como se de um pai.

            Cine Marília que tinha como vizinho o Cine Bar, que era um “point” onde freqüentávamos após as sessões.

            Cine Marília das interrupções, que as velhas fitas sempre provocavam ao se arrebentarem.

Cine Marília de todos, mas, que de maneira especial o trato como meu; ali tive momentos memoráveis como criança, ao ir aos domingos as “matinés”, onde assistia bons filmes e os tradicionais seriados, que, sempre paravam em momentos cruciais, para anunciar que continuaria no próximo domingo.

            Cine Marília de minha juventude, onde com mais seis amigos (éramos chamados de sete homens e um destino, pois em tudo estávamos juntos); mesmo em sessões lotadas sempre tínhamos nossos lugares reservados pelo “seu” Zésinho ou pelos lanterninhas que tornaram-se amigos fiéis.

            Cine Marília de meu namoro com a doce Cleuza, hoje minha esposa, e, que tanto marcou nossas vidas.

            Cine Marília que veio abaixo por negligência de políticos e protetores da história de nossa cidade, que nada fizeram para preservá-lo, e por isso foi vendido e demolido.

            Cine Marília que tanto marcou nossas vidas, que tanto influenciou o nosso futuro, quando dos primeiros pedaços vindos abaixo; confesso... Chorei; chorei como se perdesse alguém muito especial; chorei por ver ruir com ele uma grande parte de minha história de vida.

            E será que só eu chorei?...

Corbi® – 22/09/2006


CRÔNICA DE NATAL

Saudades da Marília dos anos 50; uma cidade pacata, com pouco mais de 50 mil habitantes; tinha um ar de interior; um ar caipira e gostoso.

Quem é daquele tempo deve lembrar-se do final de ano; das lojas da Prudente de Moraes esquina com a 4 de abril e São Luís, esquina da 9 de julho até a Campos Salles, onde se concentrava a força comercial de nossa cidade.

Ali era o marco inicial das festas natalinas; o comércio começava a abrir todas as noites até  a meia noite a partir do dia 10 de dezembro.

E é exatamente ali naquele trecho comercial famoso que minhas lembranças se aguçam, mais exatamente na esquina da 4 de abril com a Prudente de Moraes; Lá estava ela, pomposa e elegante, a famosa “Casas Econômicas”, onde só as pessoas da alta sociedade tinham acesso, mas, que para nós, meninos pobres e simples tinha um significado e um simbolismo muito maior.

Era ali que chegava o nosso bom velhinho, o inconfundível Papai Noel; gordo, bochecha vermelha, risonho, lá vinha ele anunciar o início das festividades natalinas.

Quanta emoção; eu podia ver tão de perto o Papai Noel, eu podia apalpar sem medo aquele velhinho que muitos teimavam em dizer que não existia.

Eu não freqüentava as Casas Econômicas, eu apenas passava à sua frente no dia a dia, ao ir ao trabalho; mal conhecia o proprietário, afinal estudava com um dos filhos dele, mas por ser pobre, tinha pouco contato, ou quase nenhum.

Mas, eu o tinha em alta estima, pois afinal todo final de ano ele me dava o privilégio de ver o Papai Noel; eu sempre chegava bem cedo, era um dos primeiros a parar em frente aquela suntuosa loja a espera do bom velhinho.

Deixando as reminiscências, e voltando aos dias de hoje, sinto que valeu a pena freqüentar por tantos anos aquele local; valeu a pena correr atrás dos sonhos; valeu a pena conhecer de perto o Papai Noel.

Hoje, no alto de minha longa folha de aniversários comemorados; sempre me lembro com carinho destes fatos, e, sempre tiro lições de vida; sempre tiro.

Quantas crianças hoje, massacradas pela onda de consumismo apregoada pela imprensa escrita, falada e televisiva, empurram garganta a dentro destas crianças, um papai Noel de grife, com marcas famosas e patrocínios gigantescos em suas vestes, tornando-os objetos caros e distantes; não é mais aquele velhinho que na calada da noite vinha pela chaminé trazer presentes; presentes simples para os mais simples, presentes finos para os mais abastados. Era um Papai Noel sem marcas nem patrocínios, que se amoldava à realidade de cada um e não era como esse de hoje que está em um pedestal bem alto, ávido a espera de lucros absurdos, deixando alienadas as crianças pobres que acabam se contentados com o carrinho reciclado ou a boneca reformada que vem de alguma instituição que se preocupa em oferecer um pouco de dignidade a aquelas crianças, mas, que se esquecem do principal; Se esquecem de vestir o papai Noel com as mesmas roupas daquele de tempos idos, que sempre eram iguais, não importando a classe social de cada um. 

Corbi

30/11/2006

            Mas por que lembrar desse início? Afinal era mais um na multidão que nascia para aumentar a população de minha querida Marília.

            E o que significava a Rua Tamandaré? Nada, apenas uma rua de um bairro conhecido por Morro do Querosene; um bairro pobre e de pessoas simples; nada tinha de importante àquela rua; mas, para mim tinha muita importância, pois nela praticamente me criei.

            Logo que me conheci por gente quis viver com minha avó, ela vivia só, por isso quis fazer companhia a ela.

            Meus pais deixaram, pois seria difícil me segurarem; com meus 6 anos fui viver com minha avó; fui morar na Rua Tamandaré.

            Ali aprendi quase tudo da vida, pois vivíamos em dois cômodos de “parede meia” (uma casa grande, dividida para abrigar várias famílias), eram várias casas num mesmo terreno, todas elas abrigavam famílias; seria o equivalente hoje as favelas, por isso carinhosamente no título desta crônica dei o nome carinhoso de “favelinha”.

            Na favelinha vivíamos como uma grande família, uma miscigenação interessante; uma grande escola de vida.

            Hoje ao me lembrar da favelinha, da Rua Tamandaré, sinto saudades e orgulho, pois vim de um lugar muito pobre, mas, de uma dignidade indescritível.

            Muitas vezes em minhas divagações, penso que se todos os políticos que hoje estão administrando (administrando?) Marília, tivessem feito estágio de vida na Rua Tamandaré, com certeza nossa cidade teria uma classe política séria e honrada; mas, eles não viveram na favelinha, eles talvez nem saibam onde fica a Rua Tamandaré.

Corbi® - 11/09/2006