Para não perder a ligação que teria ao longo de minha vida com a Rua Tamandaré, fiquei com minha mãe na casa de minha avó. Ali fui amamentado e respirei daquele ar especial, que inflou por alguns dias meus pulmões.

MARÍLIA

Ao entrar no recinto do supermercado Tauste, deparo com lindas fotos na parede, que me encantam.

Sinto saudades daquele velho armazém de esquina, de como era a praça São Bento com seus bancos, suas arvorezinhas redondas.

O passeio com suas pedras claras, como se me convidasse a fazer uma breve caminhada até a porta da igreja.

O eco vindo do espaço vazio, deste passado feliz, de velhas casas, com lembranças das crianças brincando por ali, entre as árvores do belo jardim, comprando pipocas do pipoqueiro.

Mas tudo muda, e temos que buscar o novo no desenvolvimento. Levando a vida como uma andorinha imigrando e crescendo.

Não que minha Marília ficou feia em sua transformação, é mais linda ainda, acompanhando o desenvolvimento, a seu tempo a sua hora.

Minha cidade nunca mais será a mesma, e a velha casa onde nasci continua lá, entre os novos prédios no caminho que leva à universidade.

Sou feliz por isso, caminhando adiante, com os cabelos esbranquiçados, acompanhando a realidade, seguindo adiante levando em meu peito a saudade, do meu primeiro beijo no cine São Luiz, e o abraço enamorado no banco da praça São Bento.

Sigo adiante deixando para trás, com os passos lentos, minha nostalgia, e sigo à frente com minha cidade, deixando a velha casa de minha infância.

Partindo rumo ao novo ao desconhecido que virá, trazendo a modernidade, e beleza para minha cidade de Marilia.

Íris Padovan 11/09/006

            Mas por que lembrar desse início? Afinal era mais um na multidão que nascia para aumentar a população de minha querida Marília.

            E o que significava a Rua Tamandaré? Nada, apenas uma rua de um bairro conhecido por Morro do Querosene; um bairro pobre e de pessoas simples; nada tinha de importante àquela rua; mas, para mim tinha muita importância, pois nela praticamente me criei.

            Logo que me conheci por gente quis viver com minha avó, ela vivia só, por isso quis fazer companhia a ela.

            Meus pais deixaram, pois seria difícil me segurarem; com meus 6 anos fui viver com minha avó; fui morar na Rua Tamandaré.

            Ali aprendi quase tudo da vida, pois vivíamos em dois cômodos de “parede meia” (uma casa grande, dividida para abrigar várias famílias), eram várias casas num mesmo terreno, todas elas abrigavam famílias; seria o equivalente hoje as favelas, por isso carinhosamente no título desta crônica dei o nome carinhoso de “favelinha”.

            Na favelinha vivíamos como uma grande família, uma miscigenação interessante; uma grande escola de vida.

            Hoje ao me lembrar da favelinha, da Rua Tamandaré, sinto saudades e orgulho, pois vim de um lugar muito pobre, mas, de uma dignidade indescritível.

            Muitas vezes em minhas divagações, penso que se todos os políticos que hoje estão administrando (administrando?) Marília, tivessem feito estágio de vida na Rua Tamandaré, com certeza nossa cidade teria uma classe política séria e honrada; mas, eles não viveram na favelinha, eles talvez nem saibam onde fica a Rua Tamandaré.

Corbi® - 11/09/2006